sábado, março 20, 2010

Cumplicidade Silenciosa



Encontrei-o na volta para casa. Na verdade ele me encontrou. Era noite. Caía uma chuva fina e vez ou outra passava um transeunte pela rua.

Eu andava em passos rápidos com um guarda-chuva na mão quando me deparei com ele. Nunca o vi por ali. Será que estava perdido? - pensei. Seguia meu caminho quando, surpresa, noto que ele passara a me acompanhar. Achei engraçado. Deixei.  Caminhávamos lado a lado. Tentei falar com ele algumas vezes, mas ele só levantava a cabeça e me lançava um olhar sereno. Fiquei quieta. Entendi que naquele momento as palavras eram desnecessárias. Percebi, então, que havíamos feito um pacto: ele seria minha companhia aquela noite e eu a dele. Éramos dois estranhos. Dois cúmplices.

Por breves momentos ele se afastava. Alguma coisa chamava sua atenção. Averiguava alguns sacos de lixo deixados no meio fio. Não ia muito longe. Logo voltava a me fazer companhia novamente. Ora ele andava pela minha direita, ora pela esquerda. Naqueles breves minutos partilhamos a solidão e a companhia um do outro. Me senti protegida, embora nunca nos víssemos antes e, provavelmente, não nos veríamos depois. Eu olhava-o em silêncio e com curiosidade - não parecia viver pelas ruas. Tinha boa aparência - pensava. E assim, numa cumplicidade silenciosa compartilhamos a extensão da rua quase deserta juntos.

Chegando em frente de casa estendi a mão para me despedir. A princípio ele se assustou, mas percebeu que eu não queria  lhe fazer mal. Passei minha mão por sua cabeça num gesto de agradecimento. Seu pelo escuro era macio. Abri o portão e entrei. Caminhava em direção à porta de casa quando olhei para trás. Vi seu rosto me olhando pelas grades do portão. Ficamos por alguns segundos assim. Talvez esperasse um convite para entrar. Talvez quisesse ter a certeza de que eu estaria bem. Senti uma enorme vontade de convidá-lo, mas não podia. Por fim, ele seguiu seu caminho e eu entrei em casa.

Penso que muitas vezes Deus nos faz companhia de um modo maravilhoso e nós nem percebemos.

2 comentários:

Paulo Tamburro disse...

CRISTINA,

sem dúvida, esta é a cumplicidade silenciosa que eu mais anseio.

Lembra-se de "pegadas na areia"?

Então, quantas vezes sentimo-nos sozinhos, o último dos seres humamos e ELE lá de cima , coçando a cabeça diz:

- Olha que até na bíblia do meu filho, tem a passagem do barco que os apóstolos pensavam que iria afundar no mar revolto da tempestade, e meu filho que estava dormindo, foi acordado, por eles, para os salvar!

E , depois de cessada a tempestadade, ainda teve que lhes passar uma belo sermão, pois, perguntou-lhes onde estava a fé daqueles seguidores de Cristo?"

Hoje, por exemplo, CRISTINA é PÁSCOA.

Quantas pessoas você acha que se lembrarão que comemora-se a resurreição do Cristo!

Será que eles terão tempo para pensar nisso, comendo ávidamente imensos e abarrotados pratos condimentados de peixes e camarões e se entupindo de chocolate?

Sei não CRISTINA!

O pior é quando à noite, eles armam um pagode , com música alta até de madrugada(rsrs).

Um abração carioca e Feliz Páscoa, para você!

Cristina Danuta disse...

É verdade. Para muitos a páscoa não passa de mais uma data no calendário voltada para vultosas vendas de chocolate e peixes. Mas não foi o coelhinho que foi pregado numa cruz...

Confesso que essa cumplicidade relatada, muitas vezes passa despercebida por mim. Culpa minha, não dEle, claro. Preocupações, afazeres, compromissos, tantas coisas e eu esqueço de parar e ver que Ele está ali. Nem sempre do jeito que eu imagino ou gostaria, mas está.

Agora, quando não é pagode nas alturas é funk (ai...) rs

Convenhamos, carioca sofre, né? rs

Beijos e feliz páscoa.