Medos e Monstros

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                                               Foto de Hugo Tinoco

Quando eu era criança ficava na casa de uma vizinha que tomava conta de mim. Era assim: de dia, eu  ficava em casa com a minha mãe e, à noite, ia para a casa dessa vizinha, onde dormia, para que minha mãe pudesse trabalhar. Ela era digitadora. Fazíamos assim para que eu passasse a maior parte do tempo com ela.

Eu devia ter uns oito ou nove anos quando enfrentei um dos meus maiores medos de infância: o medo do escuro. Mas eu sabia que aquele medo era infundado. Coisa que toda criança possui. Embora ainda pequena, detestava sentir aquele medo. Me achava uma bobona. Um dia decidi que perderia o medo do escuro. O que fiz? Enfrentei-o ficando no escuro. Resoluta, entrei em um dos quartos da casa de dona Tina (esse era o nome da vizinha), era noite, e fiquei ali dentro por um bom tempo, bem no meio do aposento.Sons surgiam do nada. Mas eu resisti.  Firme. Saí do quarto com um ar vitorioso. Mas para comprovar para mim mesma que havia, de fato,  perdido o medo do escuro, me impus a temida prova final. Aquela que até muitos adultos tinham medo de fazer.

Dona Tina morava em uma casa relativamente grande e que possuía um imenso quintal nos fundos. Muitas plantas, àrvores e bichos.  Ela tinha dois cágados que ficavam por lá. A fêmea era mansa, mas o macho adorava correr (imagine a velocidade de um cágado) atrás de um calcanhar desavisado. Ai daquele que fosse mordido pelo bicho. Arrancava até pedaço. Esse era o teste supremo: Eu iria até o quintal percorrendo-o do início ao fim.

Fui até a porta dos fundos e me preparei para o último teste. Olhei o quintal. Era um breu só. Tentei manter meus olhos atentos por causa do cágado assassino e fui andando calmamente em direção ao quintal. Conforme ia caminhamdo, ouvia o barulho do vento sacudindo as folhas das árvores, galhos estalando, pássaros voando (ou seriam morcegos?) e a minha imaginação começou a dar sinal de vida. Olhava para os lados e nada via. Além disso, eu tinha medo dos montros que habitavam a escuridão. Pronto, eram dois medos a serem vencidos aquela noite. Para vencer o medo dos montros recorri a uma estagégia curiosa para uma garotinha da minha idade. Como eu sabia que os montros, na verdade,  habitavam apenas a minha imaginação, condicionei a minha mente a pensar diferente. Comecei a imaginar os montros como meus amigos, como aqueles que me protegeriam no meio da escuridão e acreditei piamente naquilo. O grande medo que eu tinha foi se esvaindo até não existir mais.

Percorri toda a extenção do quintal e quando cheguei de volta ao início, foi como se houvesse ganhado a medalha de ouro de uma grande maratona. Senti uma alegria imensa e um enorme alívio. Subi alegre e saltitante para dentro da casa. Nunca contei essa história a ninguém.

Estou contando esse fato da minha infância porque me surpreendi um dia desses ao constatar que tenho muitos medos. Muitos deles bobos (talvez a maior parte dos nossos medos sejam  bobos, na verdade). Me lembrei dessa garotinha destemida que eu era e me perguntei por onde ela andaria. Por que quando eu era criança sabia enfrentar meus medos e agora, adulta, tinha dificuldades? O que houve comigo? A gente pensa, quando mais novo, que os adultos não possuem medo. Que ter medo é coisa de criança. Ledo engano. Os medos já não são de montros nem do escuro. Agora são outros. São medos de adulto...Às vezes o objeto do medo não está fora, mas dentro de nós. Medo de ser quem se é. Medo do fracasso. Medo do olhar reprovador do outro. Medo de não agradar. Medo de ser rejeitado. Medo de se olhar por dentro e ver algo que não gosta. Medo de que alguém descubra isso. Alguém diria que muitos desses e de outros medos são obras da fantasia. Que não existem de fato. Muitas vezes criamos monstros na nossa cabeça e os alimentamos com a nossa imaginação. É preciso deixá-los morrer de inanição. Outros existem e precisam ser enfrentados. Estou precisando me encontrar com aquela garotinha e ter uma conversa com ela. Quem sabe eu a encontre no temível quintal novamente...

"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam"  Salmo 23:4


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