sábado, março 27, 2010

O Amor é uma Flor Roxa...



Voltava para casa depois da aula de desenho artístico. Já tinha passado do meio dia e fazia um calor insuportável. Um senhor do alto de seus setenta e três anos se senta ao meu lado no ônibus e começa uma pequena conversa.

- Posso fazer uma pequena brincadeira com você? - ele gentilmente me pergunta. Sorrio e digo que sim.

- Está vendo aquela senhora descendo as escadas?  Era uma senhora de delicados cabelos brancos carregando algumas sacolas de compras. Notei que descia com uma certa dificuldade.

- É você amanhã. - diz ele sorrindo. Sorrio novamente  e pergunto - Será?

- Eu achava que também não chegaria a essa idade, mas veja só. Já estou com setenta e três anos!- ele passa, então, a mão sobre uns poucos cabelos brancos que ainda lhe restam sobre a fronte.

- E ainda tem mais! - diz ele com uma certa empolgação na voz.

- Faço amanhã trinte e um anos de casado! - e dá uma leve risada.

- Trinta e um? Nossa, isso é raro hoje em dia - digo surpresa - Parabéns!


Ele agradece e concorda com a minha constatação.

- A patroa tá em casa. E ainda tenho cinco filhos, nove netos e mais bisnetos também. É verdade. É muito raro mesmo. Espero que você chegue à minha idade e tenha muitos filhos, netos e possa comemorar essa data assim como eu.

- Quem sabe - disse sorrindo.

- Tem uma frase que diz:" Se o amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas, eu sou um" disse, dando uma risada.

- Você é novinha, tem o que, dezessete anos?

- Não. Tenho cara de novinha, mas sou mais velha. Tenho trinta e um.

- É? Nossa, que Deus te abençõe - diz com certo ar de surpresa.

- Desculpe se aborreci você com a minha conversa. Tenho que descer agora.

- De forma alguma.

- Deus te abençõe, minha filha - diz ele mais uma vez, enquanto se levanta para descer do ônibus.

- Ao senhor também.

Aquele senhor, então, desceu do ônibus e eu continuei minha viagem devolta para casa. Fiquei pensando nas coisas que ele disse. Trinta e um anos de casado. Quem, hoje em dia, consegue comemorar uma data como essa? Os relacionamentos estão cada vez mais líquidos, superficiais. Quantos são os casais que conheço ou conheci que brigam por bobagens e acabam se separando. Não conseguem dialogar. Não há tolerância. Não conseguem manter um namoro num nível sadio, quanto mais um casamento.

Soube que um casal próximo havia se separado há pouco tempo depois de mais de quatro anos de namoro e noivado. Motivo fútil. O rapaz já estava até querendo fazer a partilha dos bens (um carro que haviam comprado juntos) como se tivessem se conhecido ontem. Fico perplexa diante de coisas assim. Quer dizer que um relacionamento de mais de quatro anos acaba do dia para a noite e passa a se resumir na partilha de um carro?

Não sei se chegarei a idade daquela senhora ou do gentil senhor que se sentou ao meu lado no ônibus. Não sei se me casarei ou terei filhos e netos - aqui abre um parênteses. Nunca tive vontade de ter filhos. Pode ser que daqui  a alguns anos mude de ideia. Mas não cogito isso como um alvo a ser alcançado ou um sonho a ser realizado na minha vida. Já o casamento sim. Durante muito tempo sonhei com isso. Mas já faz um bom tempo também que minhas idealizações sobre o casamento se esvaíram. Não que eu não queira mais me casar. Acho a ideia de envelhecer junto de alguém adorável e querível. Mas já não há a fantasia da pessoa ideal de quando a gente é adolescente. As pessoas são diferentes. As pessoas decepcionam, têm defeitos, manias (muitas irritantes, outras adoráveis e ainda outras adoravelmente irritantes). Deus não vai me mandar alguém e alma gêmea não existe. Talvez eu conheça alguém um dia. Talvez não - fecha parênteses - mas gostaria de, quando olhar para trás, do alto de meus cabelos brancos (se isso me for permitido), ver que minha vida foi significante para mim e para aqueles que estão ao meu redor. Quando era adolescente vivia orando à Deus pedindo para que Ele  não deixasse eu ter uma vida medíocre. Há coisa pior do que ter uma vida medíocre? Gosto de uma frase de Oscar Wilde que diz: " Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.". É isso. Não exista apenas. Viva. E viva com gosto.

E quanto ao amor. Ah, o amor é uma flor roxa...e quem sabe, um dia, eu ainda vire trouxa...

Cristina Danuta de Souza - 27/03/10

11 comentários:

Paulo Tamburro disse...

CRISTINA,

que bom encontrar uma carioca.

Estamaos em extinção(rs).

Já passou pela sua cabeça, que este é um texto, absolutamente profissional, Cristina?

Sabe qual a razão da pergunta?

E o seguinte: apesar de não ter setenta e tres anos de idade (espero chegar lá),mas vou lhe dizer algo, pois se eu escrevesse textos como este, já teria editado um livro.

Você escreve muitissimo bem, Cristina e poucas vezes me entusiasmo com o conteudo de blogs, mas sou obrigado a reconhecer que além da forma e conteúdo, você passa para o leitor o que eu nunca consegui: Emoção!

É verdade.

Voltarei sempre.

Um abração carioca!

Cristina Danuta disse...

Oi Paulo. Muito obrigada pelas palavras. Quem sabe um dia ainda escrevo um livro mesmo. A ideia é boa. Mas cá entre nós, acho que ainda preciso melhorar (e muito) no Português e nas ideias também para poder escrever um (ser uma capricorniana perfeccionista é um saco rs). Sei que meus leitores são poucos, mas é muito gostoso receber um feedback assim como o seu. Gosto de escrever sobre o que sinto e vivencio, e todos aqueles que passam por aqui são muito bem-vindos.

Volte sempre que quiser.

Grande abraço.

Paulo Tamburro disse...

CRISTINA,

português a gente aprende.

Agora, tecer frases, bordar textos, como a habilidade das artesãs das rendas de Bilros, que caprichosamente entrelaçam fio por fio, até a obra final, é um privilégio, qua a natureza contempla a muito poucos.

Na última frase: "E quanto ao amor.Ah,o amor é uma flor roxa...e quem sabe, um dia, eu ainda vire trouxa..."

CRISTINA , ou eu estou muito carente (rs) ou você - e isto é certo - escreveu uma dos mais lindos textos que já li.

E por esta razão, também , serei seu seguidor.

Um abração carioca e Feliz Páscoa.

Cristina Danuta disse...

Agora fiquei avexada (rs). O trabalho das artesãs de rendas de bilros são realmente belíssimos. E ser comparada a elas é um privilégio e tanto.=)

Obrigada pelas palavras mais uma vez.

OBS: Seus blogs são muito bons. Me diverti muito.

Abraços querido e feliz páscoa pra você também e todos os seus.

Mari disse...

Olá Cristina,
É realmente uma pena que os relacionamentos estejam assim...
Eu, quando me casei pensei que fosse para a vida inteira... mas não foi.
Mas te digo uma coisa, eu ainda quero ser trouxa! Acredito e espero um relacionamento duradouro!
Bela crônica!
Estarei por aqui.
Beijos
Mari

Cristina Danuta disse...

Oi Mari. Obrigada!

Seja muito bem-vinda.

OBS: Adorei seu blog. Também me dá uma vontade doida de comer algo salgado depois de comer algo doce rsrs

Beijos

Guará Matos disse...

Fui casado por duas vezes e não consegui ser "trouxa" o suficiente, rsrsrsrs!
Não sei se quero ainda ser.
Bjs.

Cristina Danuta disse...

Oi Guará. Bem, nunca fui casada (quem sabe um dia), mas sei que as pessoas muitas vezes complicam o que poderia ser simples... =)

Seja bem-vindo.

Beijos

Paulo Tamburro disse...

CRISTINA.

O BLOG COMO ERA FÁCIL FAZER SEXO CONVIDA VOCÊ PARA O

RENASCIMENTO DO AMOR ROMÂNTICO.


ANTES, VOCÊ PODE ENTRAR NO CLIMA DA CRÔNICA “DA TROMPA DE

EUSTÁQUIO À TROMPA DE FALÓPIO, OU SIMPLESMENTE BOLERO,

ACESSANDO ESTE LINK DO YOU TUBE, OU ENTÃO VÁ DIRETO AOS

FINALMENTES (RS)


http://www.youtube.com/watch?v=yEvesEeFsTc&feature=related


É UMA CRÕNICA DE HUMOR, SIM, MAS VOCÊ VAI GOSTAR DO QUE VAI LER.


UM ABRAÇÃO CARIOCA.

Fabio Faith disse...

Muito incrivel seu text. gostei muito. de fato relacionamento é uma arte e nao se dá do dia pra noite, "gasta-se" tempo, necessita-se que alguem ceda em algo,pro bem do casal...ninguem se relaciona só...relacionamento depende de dus pessoas no minimo, e sempre irá necessitar d dialogo, pois só assim dificuldades sao superadas. Concordo! a vida é pra se viver, nao apenas existir.

gde abraço...parabens pelo blog maravilhoso. Deus te abençoe

Cristina Danuta disse...

Oi Fábio. Muito obrigada pela visita e pelo comentário.

Beijos