O Amor é uma Flor Roxa...

21:00



Voltava para casa depois da aula de desenho artístico. Já tinha passado do meio dia e fazia um calor insuportável. Um senhor do alto de seus setenta e três anos se senta ao meu lado no ônibus e começa uma pequena conversa.

- Posso fazer uma pequena brincadeira com você? - ele gentilmente me pergunta. Sorrio e digo que sim.

- Está vendo aquela senhora descendo as escadas?  Era uma senhora de delicados cabelos brancos carregando algumas sacolas de compras. Notei que descia com uma certa dificuldade.

- É você amanhã. - diz ele sorrindo. Sorrio novamente  e pergunto - Será?

- Eu achava que também não chegaria a essa idade, mas veja só. Já estou com setenta e três anos!- ele passa, então, a mão sobre uns poucos cabelos brancos que ainda lhe restam sobre a fronte.

- E ainda tem mais! - diz ele com uma certa empolgação na voz.

- Faço amanhã trinte e um anos de casado! - e dá uma leve risada.

- Trinta e um? Nossa, isso é raro hoje em dia - digo surpresa - Parabéns!


Ele agradece e concorda com a minha constatação.

- A patroa tá em casa. E ainda tenho cinco filhos, nove netos e mais bisnetos também. É verdade. É muito raro mesmo. Espero que você chegue à minha idade e tenha muitos filhos, netos e possa comemorar essa data assim como eu.

- Quem sabe - disse sorrindo.

- Tem uma frase que diz:" Se o amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas, eu sou um" disse, dando uma risada.

- Você é novinha, tem o que, dezessete anos?

- Não. Tenho cara de novinha, mas sou mais velha. Tenho trinta e um.

- É? Nossa, que Deus te abençõe - diz com certo ar de surpresa.

- Desculpe se aborreci você com a minha conversa. Tenho que descer agora.

- De forma alguma.

- Deus te abençõe, minha filha - diz ele mais uma vez, enquanto se levanta para descer do ônibus.

- Ao senhor também.

Aquele senhor, então, desceu do ônibus e eu continuei minha viagem devolta para casa. Fiquei pensando nas coisas que ele disse. Trinta e um anos de casado. Quem, hoje em dia, consegue comemorar uma data como essa? Os relacionamentos estão cada vez mais líquidos, superficiais. Quantos são os casais que conheço ou conheci que brigam por bobagens e acabam se separando. Não conseguem dialogar. Não há tolerância. Não conseguem manter um namoro num nível sadio, quanto mais um casamento.

Soube que um casal próximo havia se separado há pouco tempo depois de mais de quatro anos de namoro e noivado. Motivo fútil. O rapaz já estava até querendo fazer a partilha dos bens (um carro que haviam comprado juntos) como se tivessem se conhecido ontem. Fico perplexa diante de coisas assim. Quer dizer que um relacionamento de mais de quatro anos acaba do dia para a noite e passa a se resumir na partilha de um carro?

Não sei se chegarei a idade daquela senhora ou do gentil senhor que se sentou ao meu lado no ônibus. Não sei se me casarei ou terei filhos e netos - aqui abre um parênteses. Nunca tive vontade de ter filhos. Pode ser que daqui  a alguns anos mude de ideia. Mas não cogito isso como um alvo a ser alcançado ou um sonho a ser realizado na minha vida. Já o casamento sim. Durante muito tempo sonhei com isso. Mas já faz um bom tempo também que minhas idealizações sobre o casamento se esvaíram. Não que eu não queira mais me casar. Acho a ideia de envelhecer junto de alguém adorável e querível. Mas já não há a fantasia da pessoa ideal de quando a gente é adolescente. As pessoas são diferentes. As pessoas decepcionam, têm defeitos, manias (muitas irritantes, outras adoráveis e ainda outras adoravelmente irritantes). Deus não vai me mandar alguém e alma gêmea não existe. Talvez eu conheça alguém um dia. Talvez não - fecha parênteses - mas gostaria de, quando olhar para trás, do alto de meus cabelos brancos (se isso me for permitido), ver que minha vida foi significante para mim e para aqueles que estão ao meu redor. Quando era adolescente vivia orando à Deus pedindo para que Ele  não deixasse eu ter uma vida medíocre. Há coisa pior do que ter uma vida medíocre? Gosto de uma frase de Oscar Wilde que diz: " Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.". É isso. Não exista apenas. Viva. E viva com gosto.

E quanto ao amor. Ah, o amor é uma flor roxa...e quem sabe, um dia, eu ainda vire trouxa...

Cristina Danuta de Souza - 27/03/10

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