A Caverna

20:20



A criança, em silêncio, pegou duas cadeiras na sala e as posicionou estrategicamente no quarto, uma de frente para a outra, cuidando para que houvesse um pequeno espaço entre elas. Dois lençóis, que a faziam lembrar os kilts escoceses, por serem xadrez e de fundo avermelhado, eram colocados sobre as duas cadeiras, formando, assim, uma singela cabana. Pregadores eram postos em pontos estratégicos do lençol, para que pudessem sustentar a sua pequena obra arquitetônica. Imagine se que aquela porcaria toda caísse na sua cabeça. Não poderia correr esse risco novamente. Na primeira tentativa, mal acabara de pôr os apetrechos e tudo viera à baixo. Frustante. Desta vez iria se precaver com os pregadores...



Pronta a obra de engenharia, ela entrou na cabana com alguns brinquedos e se pôs a sonhar acordada... imaginou-se numa caverna no alto das montanhas. Lugar inóspito. Afastado de tudo e de todos. Lá fora os flocos de neve bailavam no ar como uma gigantesca companhia de dança, todos em perfeita sincronia, acompanhados pelo assobio do vento gelado. Era a única melodia que se podia ouvir. Ninguém se atreveria a subir até lá, ela pensou.



Havia uma pequena fogueira que fizera com algumas lascas de madeira e gravetos que encontrara no chão da gruta. Era a única iluminação do lugar. De repente, uma visita inesperada: o gato entrara na cabana sem pedir permissão, interrompendo as fantasias daquela criança. O bichano se alojou no assento da cadeira sem a menor cerimônia. Mas espera, gato não. Como uma gato chegaria no alto de uma montanha coberta de neve? Seria uma pantera negra. Afinal, como um bom animal selvagem ele era o único que conseguiria chegar até ali. Como não tinha jeito de espantar o bichano, era melhor deixá-lo ali, no canto que escolhera,. Dormindo. Pelo menos seria uma boa, macia  e silenciosa companhia.

 

Ficaria na caverna por um bom tempo. Dormiria ali mesmo, no pavilhão superior. De um lado ela, a criança. De outro, a pantera.Sentia-se segura. Ali era diferente. Era seu esconderijo. Confortável, acolhedor. Poderia ser ela mesma. Não se atreveria a sair da caverna tão cedo, afinal, o mundo lá fora era muito perigoso...
 
Cristina Danuta de Souza , em  24/04/2010

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