sábado, abril 24, 2010

A Caverna



A criança, em silêncio, pegou duas cadeiras na sala e as posicionou estrategicamente no quarto, uma de frente para a outra, cuidando para que houvesse um pequeno espaço entre elas. Dois lençóis, que a faziam lembrar os kilts escoceses, por serem xadrez e de fundo avermelhado, eram colocados sobre as duas cadeiras, formando, assim, uma singela cabana. Pregadores eram postos em pontos estratégicos do lençol, para que pudessem sustentar a sua pequena obra arquitetônica. Imagine se que aquela porcaria toda caísse na sua cabeça. Não poderia correr esse risco novamente. Na primeira tentativa, mal acabara de pôr os apetrechos e tudo viera à baixo. Frustante. Desta vez iria se precaver com os pregadores...



Pronta a obra de engenharia, ela entrou na cabana com alguns brinquedos e se pôs a sonhar acordada... imaginou-se numa caverna no alto das montanhas. Lugar inóspito. Afastado de tudo e de todos. Lá fora os flocos de neve bailavam no ar como uma gigantesca companhia de dança, todos em perfeita sincronia, acompanhados pelo assobio do vento gelado. Era a única melodia que se podia ouvir. Ninguém se atreveria a subir até lá, ela pensou.



Havia uma pequena fogueira que fizera com algumas lascas de madeira e gravetos que encontrara no chão da gruta. Era a única iluminação do lugar. De repente, uma visita inesperada: o gato entrara na cabana sem pedir permissão, interrompendo as fantasias daquela criança. O bichano se alojou no assento da cadeira sem a menor cerimônia. Mas espera, gato não. Como uma gato chegaria no alto de uma montanha coberta de neve? Seria uma pantera negra. Afinal, como um bom animal selvagem ele era o único que conseguiria chegar até ali. Como não tinha jeito de espantar o bichano, era melhor deixá-lo ali, no canto que escolhera,. Dormindo. Pelo menos seria uma boa, macia  e silenciosa companhia.

 

Ficaria na caverna por um bom tempo. Dormiria ali mesmo, no pavilhão superior. De um lado ela, a criança. De outro, a pantera.Sentia-se segura. Ali era diferente. Era seu esconderijo. Confortável, acolhedor. Poderia ser ela mesma. Não se atreveria a sair da caverna tão cedo, afinal, o mundo lá fora era muito perigoso...
 
Cristina Danuta de Souza , em  24/04/2010

2 comentários:

G. disse...

Oi, Cristina... O texto me fez lembrar muito do meu tempo de criança. É impressionante o que a imaginação de um pequenino pode criar. Recordo-me que no fundo do quintal de casa, por meio de tábuas e cartolina eu conseguia "navegar" num navio em pleno mar aberto... Emocionante, mais até do que a sensação que temos nos mais modernos vídeo-games de hoje em dia... Seu blog é lindo sob todos os aspectos.

Perguntinha: Você que fez o desenho do cavalo que ilustra a página? Belíssimo trabalho!

Beijo carinhoso, abraço carinhoso, cuide-se bem...

Cristina Danuta disse...

Oi G (Gustavo? Gabriel?) rs

Quando criança, eu era muito sonhadora. Vivia inventando brincadeiras e diversões. Ainda conservo boas coisas do tempo de criança. A imaginação e o jeito meio moleca são algumas (rs), embora esse texto seja autobiográfico mesmo hehe.

Sinto enormes saudades do desenhos antigos, por exemplo. Tenho vários episódios gravados no compudador. Os video-games de hoje perdem pra eles.

Obrigada pelas palavras carinhosas.

Sim, o desenho é de minha autoria. Se você clicar sobre ele, vai acessar meu outro blog, onde posto algumas fotos e desenhos meus.

Beijão e volte sempre.