Uma Pequena Grande Mulher

22:50


Begônias para minha mãe
arquivo pessoal

Já vai fazer trinta e dois  anos que eu convivo com ela. Passamos por muitos momentos juntas. Bons e ruins. Ela.sempre me encorajou, desde pequena, a não ter medo de sonhar. A ir em busca dos meus objetivos, ser determinada e de não me deixar abater pelas dificuldades da vida. Para minha mãe filho se cria para ser independente. E nada de passar a mãozinha na cabeça. Quando tá errado, tá errado e pronto. Tem que aprender a reconhecer os erros. É assim que se cresce e se vira gente.

Ela sempre foi assim: determinada, guerreira e batalhadora. Nunca vi minha mãe se deixar abater por nada. Não que ela não tenha passado por dificuldades. Passou por muitas. Teve infância e adolescência muito difíceis. Eu só fui entender muita coisa depois que cresci. Já dei muito trabalho para ela, principalmente na transição da adolescência para a juventude. Brigávamos a toda hora. Já disse coisas a ela que, só de lembrar, sinto vergonha. Mas essa fase passou. A gente amadurece. Começa a ver que os pais são gente como a gente. Eles também têm seus erros. E na maioria das vezes erram na tentativa de acertar.

Minha mãe me criou sozinha. Para resumir: ela fez produção independente. Estava com trinta e oito anos, solteira e com uma enorme vontade de ter um filho. Não para chamar de seu, mas para ter um companheiro de vida, um amigo, muito mais do que um filho. Tem gente que tem filhos pelos mais diversos motivos: porque casou e "precisa" ter um filho (entenda-se esse "precisa" como cobrança familiar e da sociedade), por medo de ficar só, para ter alguém que cuide dele quando a velhice chegar, para ter a "posse" sobre alguém ou sabe-se lá mais o que. Mas minha mãe não. Ela só me quis muito e pronto. Sem cobranças, sem expectativas. Um dia conheceu meu pai, eles começaram a namorar e ela achou que tinha chegado o momento certo. Engravidou, mas meu pai disse não estar preparado para aquilo. Ela deixou o caminho livre para ele escolher o que queria. Sem cobranças. Nunca o conheci. Quem sabe um dia... Ela costuma dizer que eu sou uma bênção em sua vida. Mal sabe ela que eu acho o contrário...

Para uma mulher solteira e com uma filha para criar a vida não era fácil. Embora já tivemos alguns vizinhos que, por causa desses detalhes e do fato dela trabalhar à noite, achavam que ela era, digamos, uma mulher de vida fácil. Mal sabiam eles que ela fazia isso para passar mais tempo comigo. Ela queria me dar atenção especial durante o dia, acompanhar meu crescimento e minha educação, já que, à noite, eu dormia na casa de uma vizinha que tomava conta de mim. Mulher sábia.

Muitas das melhores coisas da vida aprendi com a minha mãe. Entre elas: ler e escrever, saborear uma boa cerveja ou uma taça de vinho e nunca deixar de sonhar. Acredite em você. Corra atrás daquilo que você quer. É o que ela sempre me diz com aquele jeito calmo e sereno. Minha mãe é uma mulher de poucas palavras, mas quando fala, muitas vezes me surpreende com sua sabedoria. Sabedoria que não tem diploma formal, pois ela possui o colegial incompleto. Mas é pos-graduada com louvor na escola da vida. Dá um "banho" em muita gente que tem canudo embaixo do braço. Quando eu estou indo com o fubá, ela já está trazendo o bolo pronto. Ela já me deu aula até de Teologia e quem fez seminário fui eu. Tomar o café da manhã com ela e escutar seus sábios conselhos ou discutir sobre os mais diversos temas, não tem preço.

Sinto que por mais que eu faça, nunca terei como lhe recompensar por tantos anos de amor, abnegação, dedicação e cuidados. Não que ela me cobre alguma coisa. Afinal, amor que se cobra não é amor. Mas mesmo assim me sinto devedora. Como diria o Lulu Santos "ela me faz tão bem, que eu também quero fazer isso por ela". É uma dívida gostosa e que eu adoro "pagar" de alguma forma. E me sinto mal quando não consigo fazer por ela algo que gostaria de ter feito. Tenho plena noção de que ela não viverá para sempre (pelo menos aqui. Acreditamos, eu e ela, que essa vida não é só o que existe) e enquanto a sua companhia ainda me for permitida, quero saber aproveitar cada momento ao seu lado. Não quero ter que esperar chegar o dia em que não a terei mais comigo, para me arrepender por tudo que não vivi com ela, por tudo que não fiz ou por tudo que não disse. Quero fazer isso agora. Sei que não posso muita coisa, mas o que puder, farei.

Essa pequena mulher de 1,58 é, na verdade, uma grande mulher. Ela já quis ser jogadora de vôlei e ter feito faculdade de Biologia. Mas, na minha opinião, a melhor coisa que ela poderia ter feito é o que ela ainda faz: ser minha mãe (e eu que, um dia, já quis que a mãe do vizinho fosse a minha. Depois de certo tempo a gente descobre que teve comportamentos idiotas na adolescência). Ela não é somente a minha mãe. É também a minha melhor amiga. Me desculpem as outras mães, mas a melhor mãe do mundo é a minha!

Dona Marcilia, eu te amo!

Da sua filha,
Cristina Danuta de Souza.

OBS: Tive que parar diversas vezes enquanto escrevia esse texto, por causa das cascatas de lágrimas que jorravam (combinação da descendência italiana e espanhola que meu pai me deixou).


You Might Also Like

4 comentários

Seguidores

Follow by Email