quinta-feira, julho 08, 2010

A Biblioteca


Biblioteca Angelica, Roma

Havia um jovem que passava seus dias lendo no interior de uma grande biblioteca. Era uma bela e enorme biblioteca em estilo medieval, que possuía uma vasta coleção de títulos de todas as espécies: livros jurídicos, científicos, teológicos, filosóficos, de psicologia, contos, lendas, biografias, etc.

Naquela biblioteca trabalhava um senhor de cabelhos grisalhos e rosto já marcado pelo tempo. Ele costumava trabalhar em uma mesa que ficava em um dos cantos: catalogava livros novos, verificava correspondências que chegavam todas as tardes e, ás vezes, atendia a algum leitor perdido no meio daquele paraíso em forma de palavras. Ele já havia reparado no jovem rapaz das outras vezes, mas aquele dia sua curiosidade falou mais alto que a sua discrição e ele se dirigiu à mesa recoberta de livros onde se encontrava aquele rapaz.

 - Desculpe interrompê-lo meu rapaz, mas há anos vejo você vir a essa biblioteca todos os dias, no mesmo horário, e fiquei curioso. O que tanto você lê?

- Estou à procura da verdade. Sei que vou encontrá-la em algum desses livros - e apontava com o dedo indicador para a imensidão de prateleiras que recobriam todas as paredes que iam até o teto.

- Meu jovem, pare de procurá-la nos livros. Quem foi que lhe disse que algum livro poderá contê-la?

O jovem, pasmo, olha para aquele senhor sem conseguir dizer uma só palavra. Talvez esperasse que ele lhe dissesse, então, onde poderia encontrar a verdade que, por anos, tanto havia procurado em vão.

Comovido pela persistência e inocência do jovem, aquele senhor se senta  na cadeira que havia ao lado da mesa, olha calmamente para a imensidão de prateleiras repleta de livros, dá um leve suspiro, olha para o rapaz e finalmente diz:

- Dentro dessa biblioteca você poderá achar muitas coisas boas, mas nunca a verdade. Ela não se encontra encerrada entre paredes ou engaiolada em livro algum. Ela é livre, como os pássaros em voo, e só poderá encontrá-la quem for livre como ela.

Nesse instante, foi como se aquele jovem tivesse tido uma revelação. Um sorriso arteiro lhe irrompe dos lábios e,  num misto de alegria e excitação, ele deixa os livros espalhados sobre a mesa saindo em disparada rumo a porta da biblioteca, onde, lá fora,  a luz vespertina do sol fazia companhia a algumas aves que cantarolavam alegremente alguma canção que não me lembro bem. A brisa afaga seu belo rosto juvenil e ele segue impelido por aquela canção misteriosa. Foi conversar com os pássaros.

Cristina Danuta de Souza, em 07/07/2010

5 comentários:

Ev. Sâmio Rodrigo disse...

A procura pela verdade realmente é uma constante na vida do ser humano. O mais famoso a questionar sobre a verdade foi Pôncio Pilatos quando perguntou a Jesus "O que é a Verdade"(Jo. 18.38).
A verdade realmente não se pode achar em livros, páginas na internet ou escondida em algum canto escuro. A verdade está em uma pessoa. A verdade "É" e "está" em Jesus Cristo. Nosso único e suficiente salvador.
Para "achar" a verdade basta tão somente aceitar a Cristo, caminhar por "este" caminho que Ele mesmo nos ensinou.
"Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." (João 14.6)

Deus te abençoe (@samiorodrigo)

Cristina Danuta disse...

Oi Sâmio. Obrigada pela visita ao blog.

Na verdade o texto originalmente não tem um caráter teológico, apesar de poder parecer. Ele surgiu após uma conversa na terapeuta e num dia em que minha cabeça estava com profundos pensamentos inquietantes sobre a vida. Aí eu acabo escrevendo, numa tentativa de exorcizálos (rs).

A verdade que o jovem busca pode ser ele mesmo. Quem ele é diante da vida, dos acontecimentos da vida. Nos livros ou fechado dentro de si mesmo, ele não vai se encontrar, somente se for para "fora" e viver a vida. Simples.

Mas tentando fazer um paralelo teológico (ai meu Deus) podemos dizer que a Verdade (com V maiúsculo, que é Cristo) só pode se deixar verdadeiramente conhecer por aqueles que são livres de amarras teológicas, ritos, preconceitos, religiões e etc, que acabam por tentar engaiolar Deus, que é muito maior do que isso tudo, numa tentativa de amoldá-lo a seu bel prazer.

Deus não se encontra amarrado a normas, rituais ou seja lá o que for. Ele ultrapassa e transcende a isso tudo. Ele é o Pássaro Encantado que muitos tentam engaiolar (Rubem Alves).

Deus te abençoe igualmente.

Eduardo Medeiros disse...

Muito bom!! Foi conversar com os pássaros...

Me diz uma coisa: é so comigo que está acontecendo ou a janela de comentários do seu blog está minúscula, tão pequena que nem estou enxergando o que estou digitando!!!!

Cristina Danuta disse...

Oi Eduardo. Que estranho, aqui pra mim está normal.

Bjs

AC disse...

Texto bonito, com mensagem firme e esclarecedora.

Bjs