A Caixa

18:40


Pandora de Jules Joseph Lefebvre


Há muito tempo atrás, numa pequena cidade do interior, havia um homem que sempre carregava em suas costas uma caixa. Para onde ia, estava com ela aos ombros. Naquela cidade, quase todos carregavam alguma coisa aos ombros, algumas mulheres carregavam jarras com água, outros cestos com flores, alguns caixas grandes, outros não carregavam nada.



Na caixa, o homem volta e meia punha ou retirava algum pequeno objeto que utilizava para o seu trabalho. Mas a cada ano ela, curiosamente, ficava mais pesada. Durante anos ele seguia esse ritual. Para onde ia levava consigo a caixa. No entanto, o peso dela já estava quase insuportável, privando-o, inclusive, de fazer suas habituais tarefas normalmente.



Um dia bem cedo, ao passar pela margem de um rio, encontra um homem que o deixa intrigado. Ele se parecia muito com seu pai quando este era jovem. Escrevia alguma coisa na terra levemente molhada pela água. Os dois se olham. Aquele homem tinha um olhar sereno que logo lhe acalma a aflição que havia se instalado no peito. De repente ele lhe pergunta:

- O que há na caixa?

- Não há nada – diz o homem com ela aos ombros e surpreso pela pergunta - só coisas velhas.

- Abra a caixa. Deixe-me ver .

Num misto de curiosidade e hesitação decide abrir a caixa. Retira-a de seus ombros e a coloca sobre uma pedra que havia ali perto. Dentro dela só havia pequenos objetos que usava diariamente e um pequeno espelho que há muito havia esquecido ali. Intrigado, o homem pega-o e reconhece, na figura refletida, um homem muito parecido consigo. Mas que, estranhamente, já não era ele. Foi um dia.

- Por que carrega um corpo morto nas costas?

Nesse momento ele abaixa a cabeça. Seus olhos se enchem de lágrimas, pois sabia, sem ter dito uma só palavra sobre si, o que aquele homem estava querendo dizer.



- É isso que lhe impede de viver a vida em toda a sua plenitude. Você não sabe que aquilo que é passado já morreu? O peso de carregar feridas, mágoas e dores, faz com que a caminhada fique cada vez mais pesada e difícil. Enquanto você o carregar nas suas costas, levando-o para onde quer que vá, ele continuará lhe assombrando. Sepulte os mortos.



- Vá e enterre a caixa com tudo o que há nela. Tudo aquilo que está morto precisa ser sepultado.



Aquele homem foi e fez conforme o outro lhe ordenara. Enterrou a caixa com tudo o que tinha dentro dela. Olhou para frente e percebeu que o sol já despontava na linha do horizonte. Voltou correndo para a beira do rio para falar com aquele homem, mas ele já não estava mais ali. Lembrou-se que ele havia deixado na terra molhada algo escrito com seu dedo. Pensando se tratar de alguma palavra ou frase, se aproximou para ver o que era, mas ali só havia o desenho de uma cruz.


Cristina Danuta de Souza, em 04/07/2010

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