domingo, julho 04, 2010

A Caixa


Pandora de Jules Joseph Lefebvre


Há muito tempo atrás, numa pequena cidade do interior, havia um homem que sempre carregava em suas costas uma caixa. Para onde ia, estava com ela aos ombros. Naquela cidade, quase todos carregavam alguma coisa aos ombros, algumas mulheres carregavam jarras com água, outros cestos com flores, alguns caixas grandes, outros não carregavam nada.



Na caixa, o homem volta e meia punha ou retirava algum pequeno objeto que utilizava para o seu trabalho. Mas a cada ano ela, curiosamente, ficava mais pesada. Durante anos ele seguia esse ritual. Para onde ia levava consigo a caixa. No entanto, o peso dela já estava quase insuportável, privando-o, inclusive, de fazer suas habituais tarefas normalmente.



Um dia bem cedo, ao passar pela margem de um rio, encontra um homem que o deixa intrigado. Ele se parecia muito com seu pai quando este era jovem. Escrevia alguma coisa na terra levemente molhada pela água. Os dois se olham. Aquele homem tinha um olhar sereno que logo lhe acalma a aflição que havia se instalado no peito. De repente ele lhe pergunta:

- O que há na caixa?

- Não há nada – diz o homem com ela aos ombros e surpreso pela pergunta - só coisas velhas.

- Abra a caixa. Deixe-me ver .

Num misto de curiosidade e hesitação decide abrir a caixa. Retira-a de seus ombros e a coloca sobre uma pedra que havia ali perto. Dentro dela só havia pequenos objetos que usava diariamente e um pequeno espelho que há muito havia esquecido ali. Intrigado, o homem pega-o e reconhece, na figura refletida, um homem muito parecido consigo. Mas que, estranhamente, já não era ele. Foi um dia.

- Por que carrega um corpo morto nas costas?

Nesse momento ele abaixa a cabeça. Seus olhos se enchem de lágrimas, pois sabia, sem ter dito uma só palavra sobre si, o que aquele homem estava querendo dizer.



- É isso que lhe impede de viver a vida em toda a sua plenitude. Você não sabe que aquilo que é passado já morreu? O peso de carregar feridas, mágoas e dores, faz com que a caminhada fique cada vez mais pesada e difícil. Enquanto você o carregar nas suas costas, levando-o para onde quer que vá, ele continuará lhe assombrando. Sepulte os mortos.



- Vá e enterre a caixa com tudo o que há nela. Tudo aquilo que está morto precisa ser sepultado.



Aquele homem foi e fez conforme o outro lhe ordenara. Enterrou a caixa com tudo o que tinha dentro dela. Olhou para frente e percebeu que o sol já despontava na linha do horizonte. Voltou correndo para a beira do rio para falar com aquele homem, mas ele já não estava mais ali. Lembrou-se que ele havia deixado na terra molhada algo escrito com seu dedo. Pensando se tratar de alguma palavra ou frase, se aproximou para ver o que era, mas ali só havia o desenho de uma cruz.


Cristina Danuta de Souza, em 04/07/2010

6 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

Muito criativa essa reconstrução do mito de pandora. Vamos enchendo de trecos as nossas caixas e nem percebemos que estamos levando peso inútil. No mito grego, a abertura da caixa espalhou as desgraças no mundo, no mito recontado pela autora, a abertura da caixa nos livra de muitos males cultivados.

Abraços.

Cristina Danuta disse...

Oi Eduardo. Gostei da sua leitura, é mais ou menos por aí mesmo.

Poderíamos dizer também que a caixa representa a alma ou o coração do homem que, sem perceber, acaba carregando dentro dele, por anos a fio, lembranças e vivências do passado que deixaram feridas, sem nunca ter, de fato, deixado tudo isso para trás, ou sem ter sepultado isso no passado, que é onde isso tudo deveria estar.

Ou como uma pessoa amiga me disse: quem vive olhando pelo retovisor não vê o que está na frente.

A título de curiosidade: existem duas versões para o mito de Pandora: numa a caixa estaria cheia de males, que é a versão que as pessoas mais conhecem, na outra, a caixa estaria na verdade cheia de sentimentos bons que escapam quando Pandora a abre, só restando a esperança.

Não sei qual seria a mais correta, até porque os mitos, dependendo da região onde são contados, podem ter alguns detalhes modificados.

Como estou fazendo um curso de mitologia grega, vou averiguar isso. =)

Bjs

Cristina Danuta disse...

Outra coisa: ao contrário do mito de Pandora, como você bem observou, a abertura da caixa liberta os males, na minha estória ela liberta o homem. Por que? Porque para se livrar do peso do passado é preciso abrir o coração (traduzindo: deixar os males que há nele irem embora, não carregá-los mais) e (quem tem ouvidos para ouvir que ouça rs) tem pessoa melhor que Cristo para nos ajudar a abrir a "caixa"? =)

Eduardo Medeiros disse...

Cristina, pelo que eu conheço do mito, todos os males saíram da caixa e dentro dela ficou apenas a esperança como um farol que indicaria que mesmo num mundo agora cheio de problemas, Há esperança ainda dentro da caixa.

"Tem pessoa melhor que Cristo para nos ajudar a abrir a caixa"?

Essa pergunta é delicada...Bom, evidente, quem tem fé nele, se verá ajudado por ele; mas quem crê em si mesmo, também poderá por decisão própria, abrir a caixa.

Creio em Cristo, mas também creio no poder de transformação que todo ser humano possui independente da religião.

Cristina Danuta disse...

Oi Eduardo.

Quanto ao mito é porque alguns pesquisadores acham estranho o fato da esperança ser a única virtude boa dentro de uma caixa cheia de males. Faria mais sentido , segundo eles, a caixa estar cheia de virtudes que então escapam quando a caixa é aberta, só sobrando a esperança. Mas a primeira descrição (caixa cheia de males onde só sobra dentro dela a esperança) é a que eu sempre ouvi falar também. O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch, parece ter essa outra versão.

Assim como você, também creio em Cristo, mas também não desabono quem não crê e consegue abrir a sua "caixa". É igualmente possível. =)

Abraços

AC disse...

Soltar a caixa e deixá-la para trás mais não é que alcançar um novo patamar no caminho do conhecimento. Cada um tem sua forma de caminhar, mas o que importa é que caminhe. Bem.

Bjs