domingo, janeiro 09, 2011

Travessia


"Certa vez, de pé sobre uma ponte em Paris, vi de longe, numa rua que descia em direção ao rio, um suicida embrulhado num cerado. Ele tinha acabado de ser retirado do Sena. De repente ouvi alguém ao meu lado dizer alguma coisa; era um jovem carreteiro, de camisa azul, bem jovem mesmo, ruivo, com um rosto inteligente, esperto e pontudo. No queixo havia uma cicatriz, da qual saltava, de forma quase petulante, um tufo espesso de pêlos vermelhos, tal qual um pincel. Quando me voltei para ele, apontou com uma virada de cabeça o objeto que chamava nossa atenção e disse piscando para mim:"Você não acha que aquele lá, se foi capaz de fazer isso, não poderia também ter feito outra coisa?".


Segui-o com um olhar de espanto enquanto ele já retornava à sua enorme carreta cheia de pedras, pois de fato: o que alguém não teria conseguido executar justo com essa força que é necessária para desatar os fortes e potentes laços da vida! Desde então, sei com certeza que até mesmo o pior, até mesmo o desespero são apenas uma abundância, um afluxo da existência que, com uma única decisão do coração, podem ser lançados na direção oposta; e onde algo é extremamente difícil, aí também nos encontramos sempre já muito perto de sua transformação."


Rainer Maria Rilke, em Cartas do poeta sobre a vida

2 comentários:

Teresa Cristina disse...

Cristina,

De volta ao seu blog.
Como sempre, uma grata experiencia.
Obrigada pelo texto.
Triste e ao mesmo tempo edificante.

Compartilhei na minha pagina do FB.
Abcs

Cristina Danuta disse...

Oi Teresa. Desculpe a demora em publicar seu comentário, mas só o vi hoje. Não apareceu nenhuma notificação no meu e-mail.

Os textos de Rainer Maria Rilke sempre me fazem sentir bem, mesmo que sejam um pouco tristes.

Abraços.