Saudade

10:00




Caravelas em alto mar avistam terras por muito tempo esperadas. Mas isso foi há muito tempo...

Ele vislumbra o horizonte azul esperando que um dia seus olhos pudessem vê-la novamente. Ainda lembra dos dias em que chegaram juntos, sob as águas do mar que se agitavam risonhas lhes dando passagem. Era um dia ensolarado como hoje. Gaivotas dançavam no manto azul celeste dando boas vindas aos navegantes e o vento roçava por entre suas velas e mastros indicando o caminho a seguir.
Aquela terra era a coisa mais linda que já haviam visto. Nunca tinham ido num lugar assim. Não era como nas outras terras. Aqueles foram os dias mais felizes de suas vidas. Mas um dia ela partiu, sem ele. Foi embora com os outros. Ele ficou. Estava quebrado, foi o que disseram. Uma tristeza imensa lhe invadiu o peito. Foi como se sentisse um golpe de machado em sua madeira já um tanto gasta por tantas aventuras. 
 
Eu nunca mais vou vê-la, pensou. O tempo foi passando e ele pode, como um expectador privilegiado, ver o crescimento e as transformações daquele lugarejo. A cidade crescia, assim como sua saudade. Como não podia mais ser caravela, lhe desmontaram e as partes boas deram novos destinos. Viu muitas coisas bonitas, mas também viu atrocidades. Podia ouvir os gemidos e a agonia daquela gente que passava carregando sacos e mais sacos de sal nas costas. Se compadecia deles. Sua tristeza não era maior do que a daqueles pobres deserdados. Compartilhava de suas dores. 
 
Mas nem tudo era ruim. A cidade não só aumentava em tamanho, mas em beleza também. As ruelas ficavam cada dia mais cheias de gente. Muitas construções. Obras e mais obras para todos os lados. Avenidas foram abertas. Houve um tempo em que a chamavam Guanabara. Até que um dia virou Rio de Janeiro, São Sebastião do Rio de Janeiro. Lindas praias, muita mata. Os prédios foram ficando cada dia mais e mais altos. Acostumou-se a viver ali. Em meio àquela gente de coração quente e sorriso no rosto. Mesmo nas dificuldades eles não fraquejavam. Gostava de sua bravura. Ele seria bravo também. Depois de tanto tempo, nem mais um resquíciozinho de já ter sido uma imponente caravela podia ser percebido. Era de madeira boa. Dessas que já quase não existem mais. Tinha virado mesa, cadeiras. Mas a saudade batia sempre que olhava para o mar. Ah, o mar...e era justamente ele que o fazia pensar nela.

A tarde já se despedia com os últimos raios de sol no horizonte. Foi a última vez que viu o mar. Mudaram-lhe para outro lugar, perto dali. Tinha cantoria e música boa. Então ele se lembrou. Era por ali, naquela pedra, que os escravos passavam. Pedra do Sal.

A música já havia começado quando ele a viu. Não podia ser. Era...era ela! Mas como? Juntaram-se as mesas. Ela de um lado e ele do outro. Ele sorriu e começou a lhe contar toda sua jornada. Ela, maravilhada, ouvia com atenção. Depois foi a vez dela. E assim passaram as próximas noites. A cantoria impregnava o ar de alegria. Depois de tanto tempo juntos, ao som dos mares, desbravando novas terras, agora, mais uma vez estavam juntos. Só que agora para desbravar novas histórias, compartilhando e fazendo parte da alegria de toda aquela gente, mas dessa vez ao som do, como chamam mesmo? Ah, sim...samba! 
 
E o que antes era lugar de agonia, virou cantoria. E a saudade em seu velho peito deu lugar à alegria.

* Crônica feita para um trabalho da faculdade. A matéria? História do Rio de Janeiro. =)

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